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Grande estudo sobre biópsia líquida mostra vantagens em relação a amostras teciduais

CHICAGO — Uma análise do DNA tumoral circulante (ctDNA) em mais de 17.000 biópsias líquidas revelou mutações genéticas semelhantes àquelas encontradas em biópsias teciduais tradicionais.

Os achados, apresentados no congresso anual de 2016 da American Society of Clinical Oncology (ASCO), “trazem importantes evidências para demonstrar a utilidade clínica da biópsia líquida”, disse o Dr. Richard Schilsky, diretor médico da ASCO, ao Medscape.

O sequenciamento de nova geração do DNA tumoral circulante de amostras de sangue amplia as opções para oncologistas em termos de personalizar a terapia contra o câncer e monitorar a resposta ao tratamento, dizem os especialistas.

“Estamos aumentando o uso de dados genômicos no dia a dia em nossa prática para guiar o tratamento, e testes como esses fornecem uma alternativa útil aos testes teciduais”, disse o Dr. Sumanta Kumar Pal, porta-voz da ASCO, durante uma entrevista coletiva. Ele observou que o fácil acesso e a conveniência para a coleta de amostras seriadas são uma vantagem da biópsia líquida sobre a tecidual.

 

“Muitos de nossos pacientes na prática clínica têm tumores cujo acesso é desafiador, como nos ossos ou no cérebro; esses são locais muito precários para biópsia tecidual”, explicou. “Ter acesso a um exame de sangue para avaliar o perfil genômico é a chave. É uma forma muito mais fácil de avaliar continuamente os dados genômicos ao longo do tratamento, e isso é certamente muito mais fácil do que submeter o paciente a repetidas biópsias”.

 

Outros testes disponíveis

 

O estudo, que usou o kit de biópsia líquida Guardant360, “representa a maior experiência nesse domínio atualmente”, disse o Dr. Sumanta, explicando porque a ASCO destacou esse estudo em particular, quando há vários outros kits de biópsia líquida comercialmente disponíveis competindo por um lugar no universo do diagnóstico e do tratamento do câncer.

“Existem múltiplas plataformas disponíveis; essa não é a única tecnologia que está sendo avaliada. É muito cedo para dizer qual delas deveríamos utilizar”, disse o Dr. Don Dizon, do Massachusetts General Hospital Cancer Center em Boston, que é presidente do Comitê de Comunicações sobre o Câncer da ASCO.

“Cynvenio e Foundation Medicine, dentre outros, têm ensaios para biópsia líquida que usam diferentes técnicas ou perfis genéticos”, disse o Dr. Pal aoMedscape. “Em algum ponto, teremos que refinar nossa abordagem e identificar qual opção é melhor que as outras. Eu acho que teremos alguma justaposição desses ensaios em estudos clínicos prospectivos”.

 

Detalhes do estudo

 

Os pesquisadores utilizaram 17.628 biópsias líquidas de 15.191 pacientes com mais de 50 tipos diferentes de câncer avançado, incluindo pulmão (37%), mama (14%) e colorretal (10%).

O exame foi realizado para fazer o perfil das principais classes de alterações genéticas que levam ao crescimento tumoral, incluindo EGFR, BRAF, KRAS, ALK, RET, e ROS1.

Quando os resultados foram comparados com padrões de mutação vistos em 9.077 biópsias teciduais no The Cancer Genome Atlas, “a detecção de mutações-chave para o câncer no ctDNA plasmático ocorreram na frequência e na distribuição esperadas”, relatou Philip Mack, professor e diretor de farmacologia molecular na University of California, Davis Comprehensive Cancer Center.

Em 49% dos pacientes, esses biomarcadores foram associados com drogas-alvo aprovadas pelo Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, e em 27%, a biópsia líquida identificou “alvos de resistência acionáveis”, isto é, mutações de resistência para as quais existem medicamentos aprovados, afirmou ele.

 

Um exemplo é o gene EGFR, que é “criticamente importante para pacientes com câncer de pulmão. Se ele exibe uma dessas mutações, provavelmente terá uma resposta positiva a um dos inibidores de tirosina quinase do EGFR aprovados pelo FDA”, disse o Dr. Mack.

Embora a biópsia tecidual e a líquida identifiquem mutações EGFR semelhantes nesse gene, existe uma exceção importante – a biópsia líquida mostrou níveis maiores da mutação de resistência T790M não observados na biópsia tecidual.

Uma ressalva importante sobre essa comparação é que as amostras teciduais do TCGA foram obtidas antes do tratamento em pacientes com todos os estágios de câncer, enquanto as biópsias líquidas foram obtidas de pacientes tratados (geralmente segunda linha ou mais), com uma média de 748 dias após o diagnóstico.

As mutações de resistência T790M tipicamente não estão presentes no momento da biópsia inicial, mas emergem na medida em que o paciente progride no tratamento, explicou o Dr. Mack. Nesse contexto, a biópsia líquida pode guiar a escolha da nova terapia, acrescentou.

Na prática clínica, o achado de uma mutação T790M significaria que o paciente com câncer de pulmão é elegível para tratamento com um inibidor do EGFR de terceira geração, como o osimertinibe (Tagrisso, AstraZeneca). Essa droga foi lançada com um teste diagnóstico associado (cobas EGFR Mutation Test v2) para detectar a mutação T790M, mas este teste é realizado em amostras de tecido do tumor. Biópsias líquidas oferecem essa informação a partir de uma amostra de sangue, mas elas também podem oferecer informações sobre muitas outras mutações, o que, nesse momento, pode não ser clinicamente útil.

Outra vantagem da biópsia líquida é que ela pode superar problemas enfrentados com amostra tecidual insuficiente, disse o Dr. Mack. Em alguns casos, quando uma biópsia tecidual é usada para diagnóstico e testes iniciais, sobra muito pouco para mais análises, mas as amostras seriadas com a biópsia líquida podem resolver isso.

Embora muitos especialistas acreditem que exista um grande papel para a biópsia líquida, é mais provável que ela complemente em vez de substituir a biópsia tecidual, afirmou o Dr. Mack.

“Sempre haverá um papel para as biópsias teciduais, ou avaliações patológicas da morfologia. Elas ainda são consideradas o padrão-ouro para a avaliação de mutações”, disse o Dr. Dizon. “No entanto, em muitos casos, a amostra de tecido pode ser insuficiente em qualidade ou quantidade para realizar diversos exames, a análise do plasma pode representar uma ótima fonte complementar de informações”.

 

Grande potencial, utilidade questionada

 

“A grande questão para todos nós vai envolver a utilidade”, disse o Dr. Dizon. “Antes mesmo de escolhermos uma biópsia líquida, precisamos nos perguntar o que faremos com essa informação”.

 

“Apenas porque um exame pode ser feito não significa que deva ser feito, não significa que ele será informativo se for feito. Cabe a nós provar a verdadeira utilidade de se fazer esse exame”, disse o Dr. Schilsky. “É um campo de rápida evolução e nós precisamos de muitos dados para guiar a utilidade clínica desse tipo de teste. Esse é um estudo importante com muitas novas informações úteis sendo apresentadas, nos levando para esse caminho, mas continuamos precisando desenvolver novos dados”.

“A vigilância de mutações que podem levar a resistência através de análises genéticas do ctDNA se tornou mandatória no tratamento de pacientes com câncer de pulmão de células não-pequenas  com mutação do EGFR, e é uma área de interesse no melanoma, no carcinoma renal e em outros tipos de tumores”, escrevem o Dr. Rafael Rosell, diretor do Programa de Biologia do Câncer e Medicina de Precisão no Catalan Institute of Oncology, e a Dra. Niki Karachaliou, diretora do Rosell Medical Oncology Service at University Hospital Sagrat Cor, em Barcelona, Espanha, em um relatório recente (Nat Rev Clin Oncol. Publicado online em 1 de junho de 2016).

“Os oncologistas estão entusiasmados com a análise do ctDNA, embora ainda seja necessário um maior refinamento dessa técnica”, acrescentam.

“Ao encontrar mutações acionáveis no sangue, esperamos ter uma ferramenta que possa aumentar o número de pacientes elegíveis para terapias personalizadas e para ensaios clínicos, pacientes que de outra forma poderiam não ter essa oportunidade devido a questões associadas à biópsia do tumor, como risco, custo e heterogeneidade”, escrevem.

Existe “uma especificidade quase perfeita e uma alta sensibilidade” na biópsia líquida, comparada com as amostras teciduais no estudo, disseram o Dr. Rosell e a Dra. Niki ao Medscape.

“A genotipagem do sangue tem grande potencial como uma forma rápida e não invasiva de rastrear impressões digitais genéticas comuns, em um câncer, enquanto evita os desafios impostos pelas biópsias tradicionais invasivas. Isso é ainda mais importante para tumores como o câncer de pulmão, que em quase em 25% dos casos o tecido de pequenas biópsias é insuficiente para realizar a lista crescente de reações de genotipagem recomendadas para o tratamento ideal”, disse a Dra. Niki.

Os doutores Richard Schilsky, Rafael Rosell, e Niki Karachaliou não declararam conflitos de interesse relevantes. O Dr. Pal relata relações financeiras com Astellas Pharma, Medivation, Novartis, Aveo, Bristol-Myers Squibb, Exelixis, Genentech, Myriad Pharmaceuticals, e Pfizer. O Dr. Dizon declara ter recebido fundos para pesquisa da Aeterna Zentaris. O Dr. Mack declara relações financeiras com Guardant Health, MolecularMD, Apton Biosystems, AstraZeneca, Novartis, e Boehringer Ingelheim.

 

Encontro Anual de 2016 da American Society of Clinical Oncology (ASCO): Resumo LBA11501. Apresentado em 7 de junho de 2016.

 

FONTE: MEDSCAPE